19 de Abril de 2018
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Colección:
Revista Interamericana de Bibliografía (RIB)
Número: 2
Título: 1998

NOTAS

1. É importante delimitar a “representatividade” da visão de mundo destas escritoras a um grupo social, uma classe específica; pois sem dúvida, nas sociedades estratificadas de que ambas provêem, haverá distintas visões de mundo, características dos extratos sociais em que se originam. Ambas autoras são descendentes de avós imigrantes da Galícia e ambas tiveram educação aprimorada. Marta foi viver na Europa logo depois de terminar o curso universitário em Buenos Aires, e só depois de vários anos voltou à América do Sul. Depois de viver e ensinar nos Estados Unidos por alguns anos, deixou o país por questões políticas, passando a viver em Paris até sua morte em 1983, num acidente aéreo. Deixou obra fundamental e renovadora como crítica da arte latinoamericana, crítica literária, e autora de narrativas de ficção. (Ver Poniatowska, “Marta Traba o el salto al vacío”).
Marta viveu na Colombia e na Venezuela, mas jamais voltou a residir na Argentina. Por seu lado, Nélida Piñón, desde muito jovem tem viajado, vivido e trabalhado na Europa e, ultimamente, nos Estados Unidos, mas continua a residir no Brasil. No entanto, a obra de Nélida não reflete a experiência brasileira da ditadura militar, enquanto que a obra de Marta Traba trata com apaixonada intensidade os horrores do fenômeno argentino e suas seqüelas: a tortura, o desaparecimento, e os dramas individuais e sociais do exílio político. Marta não parece ter-se interessado jamais pelas suas raízes galegas; pelo contrário, afirma-se como latinoamericana, sem atenção às fronteiras geográficas do continente. Nélida parece nostalgicamente ligada às suas origens, às memórias do avô galego que veio ao Brasil “facer a América” (Tosar).
2. No texto a seguir, os números das páginas que acompanham as iniciais em parênteses se referem às edições consultadas: CP por A casa da paixão e LCV por Las ceremonias del verano.
3. Cf. Poniatowska (nota anterior).
4. “Sujeito” é usado aqui no sentido lacaniano; o “Eu” que protagoniza o processo, consciente da extensão e dos limites da sua individualidade em relação ao Outro, ao não-Eu.
5. Chamo a atenção aqui para o fato de não haver, ao que eu saiba, exemplos de narrativa latinoamericana contemporânea que explore a vida religiosa como via de escape para a mulher realizar sua vida interior. O que é surpreendente, pois, apesar de ambígua e problemática, a vida religiosa constituiu, frente ao matrimônio, a única alternativa dignificante para a mulher latinoamericana.
6. Na literatura ocidental do século passado há obras famosas escritas por homens sobre o tema —Madame Bovary de Flaubert e Ana Karenina de Dostoiévsky. No entanto, um dos exemplos marcantes da necessária relativização do conceito de fracasso encontra-se numa novela curta e polêmica de finais do século XIX, The Awakening (1899), da norteamericana Kate Chopin. Nesta novela, o suicídio encoberto como acidente é a opção que a protagonista encontra para preservar sua identidade e vida interior recém descobertas. A conclusão, escandalosa na sua época por estar em contradição com princípios religiosos cristãos, parece-me discutível desde um ponto de vista feminista. Pois, ao fim e ao cabo, propõe e aceita a auto-destruição da mulher como uma solução conveniente para o homem e para a sociedade: pois o suicídio configura-se como punição socialmente cômoda e adequada à mulher desafiadora das tradições. De fato, é um crime contra si mesma que a mulher em crise pratica, em acúmulo a outros praticados contra ela pela sociedade e nos moldes dos mesmos. No caso de narrativas contemporâneas, o suicídio raramente aparece como saída para a mulher que não quer submeter-se às convenções sócio-culturais. Mas convém notar que, paradoxalmente, o fracasso das heroínas de Chopin, Flaubert e Dostoiévsky, revelam uma força de convicção e de determinação de “ser”, de autodefinir-se, raramente associadas com a mulher nos séculos anteriores. Pode-se compreender que tais heroínas possam ser tomadas como “bem-sucedidas” exatamente porque não cedem no seu desejo de buscar e de definir seu próprio destino.
7. Na escola de Joana, a professora terminava de contar uma história, dizendo: “ E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes”. Ao que a menina pergunta: “ O que é que se consegue quando se fica feliz?” E repete: “ Queria saber, depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?” A professora, atônita pela pergunta, não sabe como responder.
8. Segundo Firestone, uma sociedade que privilegiasse uma “sexualidade polimorfa e mais natural”, dando lugar às relações físicas e emocionais totais, em que o sexo estaria incluído mas não seria central às relações estabelecidas.
9. Emile Rosseau, citado por Derrida em Of Grammatology, p.17-18.
10. Sobre estes conceitos, ver também Irigaray, “Plato’s Hystera”, in Speculum of the Other Woman.
11. Integração e comunhão apregoadas pelo cristianismo, mas, em geral, paradoxalmente impedidas pela sua visão dicotômica e hierárquica do ser humano, que enfatiza, e desvirtua, o sentido original da primazia do espírito sobre o corpo. Visão ocidental, herdada da cultura greco-romana e distorcida ao prestigiar o espírito, associando-o ao homem, e ao menosprezar o corpo e o erotismo dos sentidos, associando-os à mulher. Pierre Vernant observa que, já no pensamento grego, o Dionisismo era “antes de tudo e privilegiadamente, um assunto de mulheres” (Tradução minha).
12. Observação feita durante as discussões da mesa redonda “On Women Writers”, no International Symposium “The World of Nélida Piñón”, organizado e patrocinado por Michael de Certeau International Center for Critical Studies e pelo Dept. of Foreign Languages, University of Miami, Flórida, 3-4 de abril de 1992.

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