20 de Julio de 2018
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Revista Interamericana de Bibliografía (RIB)
Número: 1-4
Título: 1997
Sección: Artículos / Articles

Tempo de rupturas: São Paulo nos anos 201

O mundo não era o mesmo depois da Primeira Grande Guerra. A guerra pôs fim a sociedade burguesa construída ao longo da segunda metade do século XIX. A civilização e a sociedade criadas pela burguesia liberal ocidental representavam, tão somente, uma forma passageira de organização do mundo industrial moderno. Houve não só uma mudança na organização da economia e na divisão das áreas de influência das grandes potências, mas sobretudo uma mudança na cultura - o movimento cultural viu renascer seus traços de rebeldia e de iconoclastia. As transformações iniciaram-se com o movimento bélico, como diz o historiador Hobsbawm:

O período que se encerrou em 1914, agosto de 1914, é uma das rupturas naturais e inegáveis da história. Foi sentido como o fim de uma era em seu tempo, e ainda o é...

...se há datas que obedecem a algo mais que à necessidade de periodização, agosto de 1914 é uma delas: foi considerado o marco do fim do mundo feito por e para a burguesia. Assinala o fim do longo século XIX.2
A sociedade brasileira não ficou imune a essas transformações. Viu-se deslocada para um novo sistema de influência econômica, social e cultural, cujo centro passou a ser ocupado pela América do Norte.

O final de uma época foi percebido pelos espíritos mais conservadores com nostalgia e com medo da ameaça constante de uma nova guerra mundial e da repetição de 1917. Esse temor é sintetizado nas palavras do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho:  “Atravessamos a mais terrível das revoluções; tudo se transforma neste momento: o que se não transforma se reforma e muita coisa se perverte ao influxo da mais bárbara das guerras...”
...Fenderam-se e desagregaram-se os alicerces da civilização: esfacela-se a família, rompem-se os sagrados pactos; aviltam-se a moral; em conúbios inconfessáveis se envilecem as religiões...3
Na memória do diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo permanecia a imagem do Brasil de 1888 - a imagem de um país que caminhava em direção ao progresso e às grandes realizações empreendidas pelos países civilizados.
No Brasil não destoávamos do concerto universal - extinta a escravidão, tínhamos apagado a única nódoa a nos aviltar perante os povos livres. Todos irmãos e todos iguais surgíamos no convívio das nações, por gozarmos de todos os direitos e liberdades, sonhando com liberdades fantásticas e hipotéticas...4
Duas épocas contrastam - 1888, a Abolição da Escravidão prenunciava otimismo com o revigoramento da liberdade, da igualdade e dos direitos civis e com a formação do mercado de trabalho livre e, 1918 - o pós-guerra anunciava o pessimismo, as  incertezas e as desesperanças no futuro. A guerra e as trincheiras criaram “a gente anômala”, “o homem sem temor à morte e sem respeito à vida, à propriedade, fatores únicos da velha moral”. A revolução russa era o exemplo da ação desse homem saído das trincheiras.

O lamento e o pessimismo não contaminaram todos os espíritos, apenas talvez, os mais conservadores e temerosos das mudanças no mundo.

Em 1917, a exposição de Anita Malfatti saúda a ruptura com o academicismo pintando de amarelo o rosto amarelo de um homem. A guerra, a revolução e a nova concepção do mundo provocaram a perda do olhar romântico do academicismo do século passado. O espírito de rebeldia estava no ar não só nas artes plásticas, pois não foi uma mera coincidência que, no decorrer de 1917, ocorressem acontecimentos como: a primeira greve geral em São Paulo e a exposição de Anita Malfatti. Eles guardavam em comum o rompimento com uma estrutura de poder, há muito tempo, consolidada.

Ê dentro desse quadro de transformações parcialmente esboçado durante o Primeira Guerra que os anos vinte serão vistos, como aqueles que sedimentam as mudanças na economia, no mercado de trabalho e na cultura da sociedade paulistana.

Em 1922, a Semana de Arte Moderna  deu continuidade à exposição de Anita Malfatti. O Homem Amarelo gritava aos quatro ventos das escadarias do Teatro Municipal:
Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações operárias, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa arte.5
Com essas palavras-imagens, os intelectuais da Semana de Arte Moderna anunciavam a vinda da modernidade. Mais do que um anúncio, eles manifestavam o desejo de serem contemporâneos às transformações do mundo, como escrevera Mário de Andrade, dois anos antes:
...automóveis, cinema, asfalto. Se estas palavras frequentam-me o livro não é porque pense com elas escrever moderno, mas porque sendo meu livro moderno, elas têm nele sua razão de ser.6
Com o modernismo, São Paulo ascende, finalmente, ao cosmopolitismo, requisito atribuído apenas à capital federal. Na conquista dessa posição, São Paulo lutou e rompeu com as convenções do academicismo, mostrou-se mais radical, menos preso às tradições do que a cidade do Rio de Janeiro.

A iconoclastia do modernismo só poderia surgir e ser realizada em solo paulistano. Os ventos das renovações e das rupturas sopravam mais fortes nas terras paulistas. A produção intelectual da cidade do Rio de Janeiro era reconhecida  por todos não tinha que provar seu valor cultural a ninguém. O Rio era a capital do país, o centro culturalmente cosmopolita, a cidade-porto ligada ao resto do mundo; o centro importador e consumidor da produção cultural européia, a sede da política e do capital financeiro; a cidade tropical, onde o exótico e o folclórico marcavam sua tradição cultural. Paradoxalmente, sua  intelectualidade tinha o compromisso de preservar o tradicional e de criar uma imagem da cidade que refletisse a imagem de um país civilizado, desenvolvido, culto e aceitável pelo mundo europeu. A produção cultural da cidade preocupava-se com a construção da imagem da cidade maravilhosa.7 A imagem europeizada e a tradição cultural exótica balizaram a criação cultural da cidade e explicam sua incapacidade em promover a explosão criativa do modernismo.

São Paulo não possuía tradição cultural e nem seus intelectuais estavam comprometidos em criar a imagem de cidade tropical-civilizada. Nos anos 20, a cidade explodia em termos econômicos e consolidava o desenvolvimento industrial. São Paulo assemelhava-se a uma cidade européia - contava com uma grande população estrangeira e com uma inexpressiva presença de ex-escravos. Faltava, entretanto, a São Paulo uma identidade cultural coerente com seu papel na sociedade e na economia brasileira.

A Semana de Arte foi o ponto culminante do processo de construção da identidade cultural de São Paulo e, somente, um movimento de mudança e de ruptura  foi capaz de torná-la visível. A construção começou no pós-guerra e se estendeu pela década de vinte, e deu origem a uma personalidade cultural de inspiração nitidamente urbana.8

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