23 de Enero de 2018
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Revista Interamericana de Bibliografía (RIB)
Número: 1-4
Título: 1997
Sección: Artículos / Articles

São Paulo: a Capital do capital

Nos anos 20, o café já não influenciava a vida da Capital da mesma forma como o fez até a Primeira Guerra Mundial. Uma nova dinâmica vinda de outras atividades, principalmente da consolidação da indústria, tomou conta da movimentação urbana. Se antes a cena econômica e política era dominada pelas famílias Prado, Penteado, Pacheco Chaves, os anos 20 serão marcados por nomes como os de Matarazzo, Crespi, Siciliano, Scarpa. Disso não resultou antagonismos - uma possível oposição de interesses agrários-cafeeiros e interesses urbanos-industriais, como muitos quiseram caracterizar. O grande capital aplicado na cultura cafeeira não era exclusivamente agrário; seus interesses se espraiavam por várias funções urbanas, bancos, indústrias, comércios e estradas de ferro.9 Mas então, o que os anos 20 trazem de novo? A diferença desses anos em relação ao período 1880-1914 reside no fato de que a cidade passa a se mover através de atividades não estritamente ligadas ao grande comércio de exportação do café. Aos capitalistas ligados à lavoura cafeeira, à indústria, aos bancos - a chamada burguesia cafeeira, junta-se o capitalista industrial de origem estrangeira, cujos negócios estão diretamente ligados à expansão do mercado interno. Esse capitalista não nasceu na década de 20; muitos estabeleceram seus negócios por volta de 1880/1890, mas a guerra e o período pós-guerra foram os momentos de consolidação, expansão e diversificação dos seus negócios. Por isso, na década de 20, a cidade dos fazendeiros transformou-se na metrópole do capital industrial.

A complexidade do crescimento urbano da Capital originava-se da maior integração e diversificação das atividades produtivas. Esse fato pode ser evidenciado, de forma aproximada, no aumento do número de estabelecimentos inscritos nos livros de lançamento de impostos sobre o capital realizado entre 1914 e 1929.10

Durante o período que se estende da eclosão do conflito bélico à crise de 1929, o número de estabelecimentos sujeitos ao pagamento do impostos cresceu 304,22%, ou seja, passou de 7.785 para 23.958 estabelecimentos. Dos oito setores estudados (indústria extrativa, indústria de transformação, comércio de mercadorias, mercado de crédito, comércio de imóveis e valores imobiliários, atividades auxiliares do comércio, transporte e comunicações e serviços), os setores que apresentaram maior crescimento foram os ligados à expansão urbana da Capital - transporte e comunicações, mercado de crédito, indústria extrativa e comércio de imóveis e valores imobiliários. Em seguida, vinha o setor de serviços pessoais, cujo número de estabelecimentos, em 1929, era quase cinco vezes maior ao registrado em 1914. E, por fim, as atividades auxiliares do comércio, a indústria de transformação e o comércio de mercadorias. Com exceção da indústria de transformação que teve um crescimento de 283% e do comércio de mercadorias, cujo crescimento foi de 238%, os demais setores apresentaram crescimento acima do conjunto total das atividades produtivas que foi da ordem de 304%.

Na Capital, há um predomínio numérico de estabelecimentos dedicados ao comércio de mercadorias, que, em 1914, totalizava 4.905 estabelecimentos e, em 1929, 11.682. Os estabelecimentos prestadores de serviços vinham em segundo lugar, em termos numéricos, com 157 estabelecimentos em 1914, e com 7.477, em 1929. A indústria de transformação ocupava o terceiro lugar, segundo o número de estabelecimentos, com 3.323 estabelecimentos, em 1929, contra os 1.175, em 1914.

Em 1914, esses três setores (comércio de mercadorias, serviços e indústria de transformação) representavam cerca de 97,3% do total de estabelecimentos na Capital. Quinze anos depois, eles representam 93,7%, uma queda que indicava, tenuamente, a diversificação das atividades produtivas e um certo avanço da divisão do trabalho com a presença de novos  setores.

A mera descrição do predomínio numérico dos estabelecimentos por setores não permite, entretanto, visualizar a integração e o sentido do crescimento que tem lugar na cidade de São Paulo.

A observação a um nível maior de desagregação setorial  marca, com maior clareza, o sentido da expansão das atividades produtivas da Capital. A desagregação dos setores em seus gêneros e ramos nos permite qualificar as mudanças ocorridas na esfera das atividades econômicas.

Chama a atenção, desde logo, a expansão das atividades industriais  e comerciais ligadas à construção física da cidade, à expansão dos prédios, ao calçamento de ruas e à urbanização de bairros. O ritmo da construção civil cresceu. Entre 1900 e 1910, o número de prédios construídos era de 1.000, média anual; entre 1910 e 1929, a média anual de construção de prédios passou para quase 3.000. Em 1910, a Capital contava com 32.914 prédios e, em 1929, com 60.000.11

O aceleramento do ritmo de construções refletiu-se no aumento da demanda por produtos empregados na construção civil, e as indústrias ligadas à produção desses produtos responderam favoravelmente: no período de 1914 a 1929, a indústria extrativa, formada pelos ramos de extração de pedras para a construção, extração de areia e pedregulho e extração de caulim, multiplicou o número de estabelecimentos por 12, de modo a atender às necessidades do crescimento das construções.

A indústria de minerais não metálicos concentrada nos anos em questão quase que exclusivamente na fabricação de telhas e tijolos, além de expandir esses ramos, diversificou-se com a instalação de fábricas de cimento e de fábricas de material sanitário.

A indústria metalúrgica cresceu quatro vezes para atender ao aumento da demanda das empresas construtoras, produzindo materiais de encanamento, pregos, grampos, artigos de serralharia, etc. O crescimento desse ramo da indústria associa-se com o processo de verticalização da cidade. Na década dos anos 20, na construção de prédios com mais de 4 pavimentos o cimento armado era substituído pelo concreto armado. Os novos materiais de maior resistência, empregados, na construção da cidade impulsionavam os ramos industriais.

Na mecânica, a diversificação ficou por conta da instalação de uma fábrica montadora de elevadores. Previa-se o aumento do número de prédios com mais de quatro andares ou pisos, a cidade verticalizava seu crescimento. O Edifício Martinelli era um exemplo, projetado, em 1924, com 12 andares acabou com 30, em 1929, para não perder a disputa de maior prédio da América Latina.

Até 1914, a pequena difusão do consumo de energia elétrica percebia-se pela inexistência de estabelecimentos produtores de material elétrico. As vias públicas eram iluminadas por combustores a gás e existiam apenas 846 focos elétricos.12 A Avenida Paulista recebeu iluminação elétrica em 1916. Um ano antes, o Trianon exibia seus postes com iluminação elétrica. Em 1920, a Capital dispunha de 2.153 focos elétricos e, a partir desse ano, a iluminação elétrica difundiu-se pelo conjunto da cidade. Os anos 20 foram o canto do cisne para os combustores a gás - enquanto se apagavam, a eletricidade tomava conta das ruas.

A indústria de material elétrico (antes inexistente), em 1929, era representada por oito estabelecimentos, sendo dois produtores de fios elétricos.

Ao crescimento dessas indústrias ligadas à expansão física da cidade junta-se o crescimento do comércio de materiais para construção, material elétrico e ferragens, mostrando a integração entre os setores da atividade econômica. As lojas de materiais para construção, até 1914, não passavam de 20; quinze anos depois, elas perfaziam um total de 178 espalhadas pela cidade. Algumas dessas lojas mostravam um certo grau de especialização, comercializando artigos específicos, como materiais elétricos e materiais de iluminação.

A extensão do espaço urbano e a intensa incorporação de áreas semi-rurais, como chácaras e sítios, ampliavam as distâncias. Se antes, o perímetro urbano podia ser percorrido a pé, com o tempo,  cresceram as dificuldades de se realizar tal façanha. Os meios de transportes tiveram seu  uso difundido. Um número crescente de veículos de tração animal, bondes elétricos e veículos motorizados cruzavam a cidade. Crescia o número de estabelecimentos fabricantes de carroças e carruagens, e, a partir dos anos 20, houve uma diversificação nesse gênero de indústria, que incluiu a produção de carrocerias para veículos automotores. Em 1929, havia quatro estabelecimentos  fabricantes de carrocerias de ônibus sobre chassis importados.

Ainda em 1920, 51% dos veículos que trafegavam na cidade eram de tração animal e apenas 20% eram veículos com motores. As carroças eram utilizadas nos serviços de entrega de pão, de leite, de lenha, de hortaliças e de carne.13

A melhoria dos transportes à tração animal veio com o uso cada vez maior de rodas de borracha. Entre 1914 e 1929, instalaram-se as primeiras fábricas de recondicionamento de pneumáticos.

Ao lado das fábricas de recondicionamento de pneumáticos, surgiram, na década de 20, as lojas de venda de artefatos de borracha. Em 1929, existiam na Capital cerca de 17 casas comerciais de pneumáticos e câmaras de ar. Dentre elas sobressaiam-se as grandes firmas estrangeiras, tais como a Goodrick Rubber Cy of Brazil, Firestone and Rubber Cy, The Goodyear Tire and Rubber Cy, United States Rubber Cy, S.A. Michelin e a General Tire & Rubber Co.14

A entrada crescente de firmas comerciais de pneumáticos e câmaras de ar combinou-se com a instalação de casas de venda de veículos, peças e acessórios. Até 1914, no comércio de peças e acessórios para veículos, dominavam  as  lojas de bicicletas, acessórios e peças. Nos anos 20, o ramo de vendas de auto-peças, peças para veículos a motores como acumuladores e coxins, passou a ser responsável por 84% do total de estabelecimentos do gênero.

As ruas da cidade ganhavam os automóveis, a velocidade e, como não poderia deixar de ocorrer, as bombas de combustíveis e lubrificantes. Na Capital, em 1914, havia uma única bomba de combustível; em quinze anos, instalaram-se 557 bombas de gasolina. Dentre elas, despontavam as distribuidoras estrangeiras, como a Standart Oil Co of Brazil, a Atlantic Refining Co, a Anglo Mexican Petroleun Co e a Texaco.15

Durante os anos 20, houve uma maior internalização da produção industrial, o que levou a uma maior integração entre os gêneros da indústria. A mecânica, a química, o papel e o papelão foram os gêneros da indústria que tiveram o número de estabelecimentos multiplicado por seis. Na indústria mecânica, o número de fabricantes de máquinas de beneficiamento de café e de outros produtos agrícolas e de máquinas industriais ampliou-se. Um exemplo dessa internalização está na instalação primeira fábrica produtora de teares, a Indústria de Máquinas Ribeiro.

A indústria de papel e papelão apresentou uma importante modificação na sua composição. Na década de 20,  três fábricas de papel e papelão foram instaladas; antes disso, só funcionavam fábricas de sacos de papel e caixas de papelão, a partir da importação de matéria-prima.

Outra importante substituição de importação da matéria-prima foi a que resultou da diversificação da indústria química. Até 1914, esse gênero da indústria produzia graxa para calçados, adubos, água sanitária e formicida. A partir das dificuldades de importar, durante a guerra, houve um impulso para a instalação de unidades produtoras de insumos e de produtos utilizados por outras indústria, e a indústria química começou a produzir anilinas, produtos de limpeza industrial, tintas e vernizes, lactite, etc.

As relações em cadeia entre os gêneros industriais consolidavam-se, permitindo a formação de um verdadeiro parque industrial diversificado e integrado.

Na indústria farmacêutica e na indústria de produtos veterinários, ocorreu a instalação dos grandes laboratórios especializados, como o Fontoura e Serpe, Rangel Pestana, Andromaco Glefina, etc. As farmácias de manipulação perdiam mercado para os laboratórios, a produção concentrava-se.

O gênero da indústria que apresentou o maior crescimento no número de estabelecimentos foi o têxtil. Em 1914, a indústria têxtil contava com apenas 42 estabelecimentos, em 1929, eram 297 estabelecimentos. Até meados de 20, a indústria não sofreu a concorrência dos produtores europeus e norte-americanos, os quais se refaziam das dificuldades impostas pela economia de guerra. A partir de 1927, a indústria têxtil entrou em crise de superprodução - excesso de capacidade produtiva criado pela retomada das empresas estrangeiras, que reiniciaram as exportações para o mercado brasileiro.16

Ainda dentro do setor produtor de bens de consumo, a indústria de calçados apresentou um  desempenho expressivo: o número de estabelecimentos, em 1914, que era de 66, passou para 240, em 1929. Ou seja, o número de fábricas de calçados quase quadruplicou em 15 anos.

Na indústria produtora de alimentos, chama a atenção o crescimento do número de panificadoras e a diversificação do gênero com a entrada das fábricas de moagem de trigo. Até a Primeira Guerra Mundial, o Estado de São Paulo importava farinha de trigo. Nos anos que seguem a guerra, os entraves para se importar farinha, o produto acabado, levaram a indústria de alimentos a instalar moinhos de trigo. A importação de farinha cedeu lugar à importação dos grãos de trigo.

Não foi somente a guerra que levou à diversificação e à expansão da produção da indústria de alimentos e à de bens de consumo corrente, o crescimento populacional da cidade de São Paulo explica a existência de um mercado consumidor, sem o qual a indústria de bens de consumo não poderia ter aquele desempenho.

Esse mesmo mercado consumidor explica o crescimento do número de estabelecimentos comerciais e de serviços. Dentre o comércio de mercadorias, destacam-se casas de venda de produtos alimentares responsáveis por prover mantimentos para a população aglomerada no núcleo urbano.

O comércio de frutas, verduras e legumes apresentou um crescimento significativo, de 79 estabelecimentos inscritos na Secretaria da Fazenda, em 1914, saltou para 899, em 1929. A ampliação de locais de venda desses produtos reflete em parte a intensa mercantilização da agricultura, principalmente daquela agricultura de alimentos, localizada nas terras circunvizinhas à Capital paulista. A expansão urbana fez surgir um cinturão verde em torno da cidade, responsável pelo fornecimento de hortaliças, frutas e flores. Essas culturas desenvolviam-se em localidades próximas, como Cotia, Mogi das Cruzes, Serra da Cantareira e Guarulhos.

O crescimento da cidade de São Paulo comportou um setor diversificado de serviços para atender às novas demandas derivadas dos comportamentos e das atitudes urbanas. O melhor exemplo para ilustrar a urbanidade dos comportamentos é o crescimento do número de estabelecimentos prestadores de serviços pessoais, tais como barbearia, cabeleireiros para homens e cabeleireiros para mulheres. Em 1914, existiam 19 estabelecimentos desse gênero para homens, em 1929, eles são 1.196, ou seja, houve um  crescimento de 6.100%. Perto desse resultado, o aumento do número de cabeleireiros para mulheres parece insignificante, pois cresceu 680%: passou de 5 estabelecimentos para 34.

O gênero do setor de serviços composto por hotéis, pensões, cafés, bares, botequins, sorveterias, leiterias e restaurantes multiplicou o seu número de estabelecimentos por quatro. Desse conjunto, as pensões tiveram o número  de estabelecimentos multiplicado por seis.

As alfaiatarias, as sapatarias, os ateliês de costuras e as relojoarias tiveram um desempenho não menos importante, multiplicaram-se por quatro. Desse grupo, destacam-se as oficinas de costuras para senhoras que passaram de 21 para 170.

A onda de construções, a diversificação da indústria, a solidariedade entre os setores do capital e o crescimento dos serviços transformaram a paisagem da cidade de São Paulo, metamorfoseando-a na metrópole do século XX.

Até a Primeira Guerra Mundial, a cidade do Rio de Janeiro liderava a indústria nacional. O Rio preenchia todas as condições para o desenvolvimento da indústria: sede do governo, cidade-porto, maior mercado consumidor e de trabalho. Em 1907, a cidade do Rio concentrava 1/3 da produção industrial do Brasil e sua população era três vezes maior do que a da capital paulista.17

São Paulo, em meados de 10, superou a liderança industrial do Rio de Janeiro. E, em 1920, o Estado de São Paulo ocupava o primeiro lugar na produção industrial, com a responsabilidade de gerar 32% do valor da produção industrial, enquanto o antigo Distrito Federal, vindo em segundo lugar, era responsável por 21%.18

Tendo iniciado o processo de industrialização depois do Rio, a Capital paulista beneficiou-se de sua posição geográfica que a transformou em centro de uma ampla região do país. A rede ferroviária, construída sob a liderança do capital cafeeiro, reforçou os laços da Capital com o interior do Estado de São Paulo, com o sul de Minas, com o triângulo mineiro, com o Mato Grosso e Goiás, com o Paraná, com Santa Catarina e com o Rio Grande do Sul.19 Essa vasta área, à medida que se incorporava à economia de mercado, se transformou em mercado consumidor de bens industrializados, produzidos pelas indústrias instaladas na Capital paulista e de bens importados, cujo comércio também estava estabelecido na cidade de São Paulo, graças a sua ligação direta com o maior porto, importador e exportador - o da cidade de Santos.

A cidade de São Paulo pôde superar sua defasagem no estabelecimento de indústrias, graças ao dinamismo desse vasto mercado interno que foi capaz de absorver cada vez mais produtos industriais. O amplo hinterland de São Paulo e a diversificação da agricultura paulista, iniciada por volta de 1905-1910, ofereciam à indústria paulistana o almejado mercado consumidor, sem o qual seu dinamismo estaria comprometido. Há uma solidariedade entre a economia urbana da Capital , com suas múltiplas atividades nucleadas pela indústria, e a economia agrícola-industrial do interior do Estado. Fato semelhante não se passou com o Rio: seu hinterland agrícola permaneceu na economia de subsistência, ou talvez, sua incorporação à economia de mercado já tivesse atingido seu limite máximo. Com isso, o Rio não se beneficiou das vantagens do pioneirismo da produção mecanizada.