October 23, 2017
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Collection: INTERAMER
Number: 45
Author: Etnia y Nación en América Latina, Vol. II
Title: George De Cerqueira Leite Zarur, Organizador

ETNICIDADE E CULTURA:
A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
TEUTO-BRASILEIRA

Giralda Seyferth
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O presente trabalho trata da identidade étnica teuto-brasileira, que surgiu no sul do Brasil no âmbito de um processo de colonização com imigrantes europeus incentivado e, em grande parte, patrocinado pelo Estado.1 Como expressão de uma identidade étnica, a categoria Deutschbrasilianer — usada aqui como construção analítica — existe desde a segunda metade do século XIX para designar imigrantes alemães e seus descendentes no Brasil. Não é a única categoria étnica utilizada por esta população e seu uso sempre foi mais freqüente no discurso da elite política e intelectual das chamadas “colônias alemãs” que, afinal, cunhou o termo. A categoria alemão, sobretudo hoje, tem sido privilegiada numa auto-identificação que toma a origem étnica como critério primordial.

A maior parte dos cientistas sociais que analisaram a imigração alemã certamente negaria aos teuto-brasileiros a condição de grupo étnico; seus trabalhos estavam voltados para fenômenos teoricamente definidos pelos conceitos de assimilação e aculturação, e viam manifestações de natureza étnica como resíduos ou sobrevivências resistentes à mudança imposta pela sociedade nacional e destinados ao desaparecimento progressivo.2

Os conceitos de grupo étnico, identidade étnica e etnicidade têm uma complicada trajetória teórica na Antropologia. As dificuldades podem ser constatadas nas muitas coletâneas, textos de resenha e estudos de caso publicados desde a década de 1960. A unidade concreta de análise — o grupo étnico — tem sido definida por diferentes combinações de características que vão da cultura comum à identidade étnica simbolicamente construída. A revisão do conceito — realizada a partir de trabalhos de autores como Abner Cohen (1969) e Frederick Barth (1969), por exemplo — resultou na incorporação das noções de identidade étnica e etnicidade, com críticas contundentes à concepção tradicional que concebia o grupo étnico como unidade cultural distinta, separada. Mas tais noções também têm definições problemáticas, derivadas da imensa diversidade dos casos estudados, razão por que tantos autores se preocuparam com o caráter excessivamente genérico dos fatos étnicos. De qualquer modo, nas duas últimas décadas, o conceito de etnicidade se transformou numa espécie de fio condutor na redefinição teórica e metodológica dos fenômenos étnicos, como pode ser verificado nas resenhas de Cohen (1978) e Williams (1989), ou em trabalhos como os de Cohen (1974), Glazer & Moynihan (1975) e Aronson (1976). Nas diversas formas de conceitualização, a etnicidade tanto pode ser definida como caráter ou qualidade do grupo étnico (Glazer & Moynihan 1975), como fenômeno situacional (Okamura 1981; Keyes, citado por Williams 1989), como fenômeno de natureza política ou econômica, remetendo a grupos de pessoas unidas em torno de interesses comuns (Cohen 1969, 1974) ou da competição por recursos (Despres 1975). Etnicidade, ainda também, pode ser definida como série de dicotomizações de inclusividade e exclusividade, num processo ao mesmo tempo objetivo e subjetivo que associa pessoas a grupos específicos (Cohen 1978), o que remete à formulação inicial de Barth (1969), acerca do papel central da identidade étnica na constituição de limites grupais.

O aparente desencontro de tantas definições não traz dificuldades à análise dos fenômenos étnicos. Ao explicitar sua definição de grupo étnico e etnicidade, Cohen (1974) adverte que deve prevalecer aquela que o pesquisador julgar mais útil para a análise de certos problemas teóricos. Sem reducionismos, cada caso tem suas especificidades. O risco da ubiqüidade está sempre presente, até porque quase todas as definições tendem a ser muito amplas e, quando usadas sem critério, podem transformar qualquer coisa em fato étnico. Como mostrou Ronald Cohen (1978), houve uma certa pressa em aplicar termos como “étnico” e “etnicidade” àquilo que, no passado, estava subsumido em rótulos como “cultura”, “tribo”, etc.3 Por outro lado, diferenças de natureza étnica e nacional entre grupos sociais estão longe de acabar no mundo moderno, e os percalços teóricos são antes reflexos de sua complexidade. No Brasil, por exemplo, o reconhecimento de diferenças étnicas e expressões que podem ser chamadas de etnicidades (manifestadas através de identidades específicas) ocorrem nas populações indígenas e negra, até de modo mais explícito porque estes grupos sofrem mais objetivamente processos de discriminação e preconceito; mas também aparecem entre descendentes de imigrantes, além das outras identidades vinculadas às diversidades regionais que assumem caráter étnico na medida em que se apoiam em libelos separatistas que nos últimos anos ganharam espaço na imprensa.

Uma definição mais ou menos objetiva de grupo étnico deve destacar pelo menos dois aspectos: é um grupo cujos membros têm uma identidade distintiva atribuída, e sua distintividade está baseada numa cultura e numa história comuns. Seu caráter étnico é dado pela identidade étnica fundamentada na noção de etnicidade — o que significa a classificação categórica dos membros do grupo a partir de um conjunto de critérios de pertencimento que incluem características culturais e sociais objetivamente identificáveis, assim como elementos de natureza simbólica que às vezes remetem à origem presuntiva do grupo ou à sua tradição. Max Weber enfatizou a força simbólica da origem comum, que permeia a idéia de pertencimento a um grupo étnico, reforçada pelo que chamou de Gemeinsamkeitgefühl (sentimento de vida em comum).

A etnicidade, “tal como é hoje usada na Antropologia, expressa uma mudança para os contextos multiculturais e multiétnicos nos quais a atenção é focalizada numa entidade — o grupo étnico — que é marcada por algum grau de comunalidade cultural e social” (Cohen 1978, 386). Os critérios de pertencimento podem não ser os mesmos para os membros do grupo e para os que não pertencem a ele, mas pressupõem o estabelecimento e manutenção de limites étnicos. A etnicidade, portanto, oferece um conjunto de identificadores culturais e sociais que relacionam pessoas a um grupo específico através de critérios de inclusão e exclusão que podem mudar no curso da história. Em grande parte, tais identificadores formam um sistema de símbolos étnicos (Aronson 1976) que criam uma espécie de consciência coletiva. Assim, se os descendentes dos alemães, estabelecidos no Brasil a partir de 1824, estão, hoje, assimilados (nos termos de Willems 1946), e são cidadãos perfeitamente integrados à nação, isso não significa a inexistência de uma etnicidade teuto-brasileira, principalmente se considerarmos relevante o conjunto de símbolos que servem de base à construção da identidade étnica. Isso, porque os símbolos adquirem existência concreta quando aceitos por outros no decorrer da interação social dentro da coletividade (Cohen 1974). Existe, portanto, uma identidade básica que se expressa através de diferenças culturalmente dadas e que podem ser assumidas como limites grupais. Resumindo, essa etnicidade não se reduz a uma simples ideologia. A persistência e a importância de uma identidade coletiva baseada em critérios de ordem étnica remetem ao fato concreto da imigração e da formação de uma cultura e de uma sociedade com características próprias (ainda que, em grande parte, compartilhadas com outros grupos de imigrados), apesar do caráter de grupo ter-se diluído ao longo do processo de assimilação à sociedade brasileira. Os limites étnicos, contudo, têm existência própria e apontam para diferenças culturais objetivas. Ou, em outras palavras, os limites são buscados naqueles elementos culturais que permitem a elaboração das diferenças.

A identidade teuto-brasileira, como outras identidades étnicas do mesmo tipo, surgiu, historicamente, quando foram rompidas as barreiras do isolamento das chamadas “colônias alemãs”, ainda no século XIX — portanto, no contato mais sistemático com a sociedade mais ampla. Como expressão de consciência coletiva, só pode ser entendida no contexto do processo histórico de colonização do sul do Brasil.

Os alemães foram protagonistas do primeiro fluxo imigratório mais sistemático que se dirigiu para o Brasil após a independência. Entre 1824 (ano da fundação da primeira colônia alemã no Rio Grande do Sul — São Leopoldo) e 1830 (quando essa imigração foi interrompida por causa da revolução Farroupilha) e, depois, entre 1845 e 1938, o Brasil recebeu imigrantes alemães todos os anos. A imigração alemã, porém, não é a mais significativa em termos numéricos, representando aproximadamente 1/6 do total de italianos. Entre 1850 e 1909 entraram mais ou menos quinze mil alemães em cada década; para o período anterior o número é quase insignificante (apenas 6.938 alemães foram assentados nas regiões de São Leopoldo, Rio Grande do Sul (RS); Rio Negro, Paraná (PR) e Mafra e São Pedro de Alcântara, Santa Catarina (SC). O maior fluxo ocorreu no período que se seguiu à primeira guerra mundial: na década de 1920 aqui chegaram cerca de 75.000 alemães, quase 30% do total. Segundo as estatísticas disponíveis, o total de imigrantes não ultrapassou 250.000 pessoas — e destas, ignora-se quantos realmente permaneceram no Brasil (Carneiro 1950; Willems 1946; Diegues Jr 1964). Tomando como base as estatísticas de entrada no país, os alemães ocupam o quinto lugar, atrás dos italianos, portugueses, espanhóis e japoneses.

Apesar dessa realidade estatística, a imigração alemã foi a que mais suscitou discussões no âmbito da política imigratória (Seyferth 1988, 1991) e o ponto crucial da polêmica estava relacionado às dificuldades de assimilação. A notoriedade está menos nas estatísticas e mais na estreita vinculação da imigração alemã com o processo de colonização de terras devolutas, levado a cabo nos três estados do sul, especialmente a partir da promulgação da Lei de Terras de 1850. Houve assentamentos de alemães em outros estados, mas foram efêmeros, especialmente em Minas Gerais e na Bahia. No Espírito Santo, até hoje, os pomerânios são objeto de curiosidade por terem mantido algumas das suas tradições, apesar da imigração alemã para aquele estado ter durado apenas um curto período.4

Na década de 1920, muitos imigrantes preferiram ficar em cidades maiores, como São Paulo, Curitiba ou Porto Alegre; mas a maior parte deles se dirigiu para as chamadas “colônias alemãs”, não necessariamente na condição de colonos. Entre os imigrantes havia grande contingente de camponeses e membros das classes trabalhadoras em geral, cuja motivação para emigrar estava relacionada à pobreza; mas também havia artífices especializados, refugiados políticos (não muito bem aceitos pelas autoridades brasileiras), ex-militares, pequenos empresários, intelectuais, etc. Segmentos estes que tiveram papel preponderante na formulação do Deutschtum (germanidade) — a expressão étnica da ideologia nacionalista alemã.

A notoriedade, portanto, deriva da concentração dos alemães em poucas regiões, em alguns casos formando colônias homogêneas que, no âmbito da formulação de um estado nacional brasileiro como projeto geopolítico da República, foram olhadas com suspeita de secessionismo. A crítica republicana à política de colonização do Império se fixava, sobretudo, no que chamaram de enquistamento, isolamento dos colonos alemães e sua concentração maior nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina — região onde ainda existiam problemas de fronteira no início do século XX, além de periódicas manifestações separatistas. Mas tanto o Império como a República privilegiaram a imigração européia e a colonização com imigrantes em detrimento dos chamados “trabalhadores nacionais”, que a elite brasileira julgava inferiores.5 De qualquer modo, isolamento e enquistamento são termos relativos. As “colônias alemãs”, cedo ou tarde, receberam imigrantes de outras etnias (poloneses, italianos, russos, etc.). Sua situação geográfica também não era tão propícia assim ao isolamento: uma vez abertas as vias de comunicação, este foi praticamente anulado. Algumas colônias, inclusive, estavam bem próximas às capitais provinciais (entre elas as paradigmáticas Blumenau e São Leopoldo) — que também receberam imigrantes desinteressados da condição de colonos. E, finalmente, o próprio grupo alemão tinha suas divisões internas, regionais (em alguns casos) e religiosas (a clivagem entre católicos e evangélico-luteranos foi bastante forte antes da era do ecumenismo).6

A emergência da identidade étnica no final do século XIX decorre da situação de contato com a sociedade brasileira, no momento da emancipação das colônias mais antigas — isto é, na cena política, quando se reivindicou para os colonos a cidadania plena e no bojo do processo de integração econômica e social. O discurso étnico então formulado — e que aparece, intermitentemente, nas publicações em língua alemã que circularam pelo sul — reivindicava o direito a uma identidade cultural própria, reafirmando a cidadania brasileira, numa proposta de estado pluralista que reconhecesse as diferenças étnicas da população e convivesse com elas. Obviamente, um discurso como este contrariava os pressupostos do estado nacional, pautado pelo ideário assimilacionista que visava à integração étnica e cultural de todos os seus habitantes no corpo social da nação.

Desde então, a etnicidade teuto-brasileira foi constantemente reafirmada através da atualização das diferenças étnicas; uma etnicidade vinculada ao processo histórico de colonização que lhe deu especificidade e estabeleceu seus limites. Nesse contexto, o isolamento experimentado pela maioria das colônias no início dos assentamentos em lotes coloniais é tomado como base para legitimar as diferenças — o poder público considerado ineficaz, desorganizado e indiferente à sorte dos colonos, tendo como contraponto idealizado a imagem dos imigrantes eficientes construtores das suas comunidades. Essa imagem dos pioneiros tem tudo o que a categoria “pioneiro” suscita: povoamento da selva sem apoio governamental, numa situação onde os membros da comunidade são impelidos a construir suas próprias igrejas, escolas, estradas, associações beneficentes, mantendo, ao mesmo tempo, sua língua, seus costumes, sua identidade nacional. Existe algum exagero nessa imagem da colônia auto-suficiente, mas, por outro lado, o sistema de colonização ficou muito aquém dos planos traçados pelos burocratas a serviço do Estado. Os colonos, na verdade, enfrentaram muitos problemas decorrentes da falta de verbas para implantação dos serviços públicos, da burocracia da naturalização, da situação fundiária caótica, do fato de não serem cidadãos plenos, mas ao mesmo tempo, estarem subordinados à administração colonial. Por outro lado, o tão falado enquistamento, presente no discurso nacionalista brasileiro, não pode ser inteiramente atribuído aos teuto-brasileiros e seu interesse em manter a especificidade étnica, mas também à própria política de assentamentos que privilegiou os europeus, afastando o campesinato brasileiro do processo de colonização (ver nota 4). O isolamento social, e não propriamente o isolamento geográfico, foi um dos fatores que permitiu a preservação, por longo tempo, do uso cotidiano da língua alemã (e os efeitos daí decorrentes) — predomínio só afetado após a década de 1930, quando a industrialização de algumas cidades passou a atrair migrantes brasileiros e o governo federal proibiu o funcionamento das escolas étnicas.

O uso do idioma alemão no dia a dia, toda a organização comunitária que incluía a escola particular com ensino em alemão (tanto no meio rural como no meio urbano), o complexo econômico e social originado da colonização baseada na pequena propriedade familiar são anteriores à emergência da etnicidade, mas acabaram por se constituir como marcas diferenciadoras do colono alemão, embora outras etnias imigradas compartilhassem desse modelo de sociedade. Na verdade, nessas regiões de colonização européia, formou-se um campesinato específico bem diferente da tradição rural brasileira.7

Contudo, ao impor o reconhecimento das diferenças e da especificidade cultural do grupo, essa etnicidade o fez num contexto realmente teuto-brasileiro — isto é, acentuando a vinculação com uma nação alemã concebida enquanto entidade portadora de uma cultura e de um ethos (sem maior referência territorial), e com o estado brasileiro, considerado como pátria no sentido espacial do termo. Ao romper os laços com a Alemanha no ato da emigração, ao assumir a colônia como a nova pátria (Heimat), estava dada a nova identidade. O símbolo mais característico disso, a partir da segunda metade do século XIX, é a fotografia do casal pioneiro, a partir do qual a nova genealogia é traçada no Brasil pelos descendentes. Essas fotografias são comuns em alguns arquivos regionais, tiradas, em sua maioria, no momento do embarque, em Hamburgo ou Amsterdam. Dificilmente, encontra-se, hoje, algum colono que consiga traçar sua genealogia além dos pioneiros. Ao “criar raízes” como colonos, uma vez estabelecidos, qualquer que fosse a forma, no Brasil, assumiram também a condição de brasileiros. A própria categoria teuto-brasileiro já aparece naturalizada em diversas publicações desde o século passado, sendo ela própria significativa de uma especificidade étnica, quer em relação aos outros alemães, quer aos outros brasileiros. O postulado da germanidade (Deutschtum), depois transformada em germanidade (teuto) brasileira (Deutschbrasilianertum), aponta, simbolicamente, para a qualidade étnica não compartilhada com os demais brasileiros. Identificando-se ou com alemão, ou com teuto-brasileiro (a rigor, o termo de identificação pouco importa), fica evidente que a essa auto-atribuição corresponde todo um conjunto de características diferenciadoras dessa população, tendo a formulação idealizada da comunidade étnica, partido da própria visibilidade das diferenças sociais e culturais também percebidas pelos brasileiros. Mas no contexto interétnico, os brasileiros atribuíram sentido diverso a essa categoria, negativamente associada a um sentimento anti-nacional, sob o argumento de que a nação brasileira não comportava as duplas identidades ameaçadoras da sua integridade. Os primeiros protestos de intelectuais e políticos brasileiros contra o uso da língua alemã, por exemplo, datam do início da república, sendo Silvio Romero o mais radical na externalização de um sentimento antigermânico.8

De maneira bem objetiva, a comunidade étnica teuto-brasileira foi definida através de critérios de pertencimento bastante inclusivos: o uso da língua alemã (o bilingüismo só seria incentivado na década de 30); a preservação de usos e costumes tradicionais, que diferenciavam dos brasileiros os seus hábitos alimentares, o comportamento religioso, a organização do espaço doméstico (tanto no interior das casas quanto nos terrenos circundantes), as concepções de trabalho e lazer, as formas de sociabilidade, as concepções acerca do universo feminino, além de um ethos camponês próprio dos colonos; a intensidade da vida associativa, através de todo um conjunto de sociedades culturais e recreativas que se encarregavam de difundir valores da cultura alemã vinculados ao teatro, literatura, música (especialmente à forma mais caracteristicamente germânica do Lied), dança, ginástica e esportes (caso das Turnvereine ou sociedades de ginástica e das Schützenvereine ou sociedade de tiro), e que assumiram um forte conteúdo étnico; a escola alemã e a família como baluartes do ensino da língua alemã. Existiam, ainda, os jornais e outras publicações em língua alemã que, ao lado da função informativa e noticiosa, também serviam de veículo aos literatos teuto-brasileiros e aos autores alemães mais tradicionalmente nacionalistas, como nos textos que ressaltavam a identidade étnica.9 A listagem das diferenças poderia ir bem mais longe se fossem considerados os traçados das cidades nas áreas de colonização, a arquitetura (inclusive religiosa), a organização do espaço rural, etc. E, a par dessas características mais objetivas e visíveis, podem ainda ser ressaltados os elementos subjetivos e simbólicos do discurso étnico, que reportam à origem comum, assumindo, muitas vezes, a forma de preconceito racial, impondo o mais efetivo dos limites grupais — a endogamia — com a condenação explícita dos casamentos interétnicos.

A afirmação da etnicidade estava, pois, vinculada à constatação de diferenças concretas, tanto por parte da população de origem alemã quanto dos brasileiros. Ao final do século XIX, a condição de minoria nacional se tornara incômoda, e as lideranças teuto-brasileiras mais atuantes passaram a cuidar não só dos interesses econômicos, mas também dos interesses políticos das colônias. Ao longo do Império, por diversas razões, imigrantes naturalizados e descendentes nascidos no Brasil ficaram à margem da cidadania, havendo interesse das classes dominantes brasileiras em deixar os colonos fora do processo político. Foram considerados estrangeiros, exatamente porque assumiram uma identidade étnica que acabou por incomodar ainda mais a elite republicana.10 No início deste século, os teuto-brasileiros resistiam à assimilação, e a continuidade do fluxo imigratório alimentava a ligação cultural com a Alemanha. As instituições comunitárias reforçavam o pertencimento étnico, auxiliadas pelo ideário da germanidade e seu postulado do direito de sangue — o mito do sangue comum acrescentando um componente racial à etnicidade, mas não necessariamente fenotípico. A origem comum é a base da identidade étnica, sem menosprezo pela cidadania/pátria brasileira. Houve uma reapropriação da ideologia nacionalista alemã que antecedeu à unificação da Alemanha (portanto, daquele nacionalismo de Fichte e Arndt, desenvolvido como ideologia no início do século XIX, postulando uma Nação Alemã de natureza cultural), perceptível nas publicações teuto-brasileiras, que ressaltavam o caráter étnico da identidade nacional e sua desvinculação política da Alemanha.

O conceito de Deutschbrazilianertum, portanto, continha uma proposta de pluralismo étnico-cultural pela qual cada grupo nacional devia ter o direito de perpetuar seus costumes, seus valores morais e sua língua materna. Proposta que entrava em choque com a concepção brasileira de estado nacional, fundamentada no direito de solo e na assimilação. Por outro lado, as expressões de preconceito racial, mais evidentes na argumentação sobre a endogamia, serviram de base para recusar a assimilação e alimentaram bastante as especulações brasileiras sobre o “perigo alemão”.11 Especulações surgidas não só porque as regiões de colonização alemã se tornaram visíveis para a sociedade mais ampla, como também porque o preconceito racial — e a conseqüente desqualificação de grande parte da população brasileira — foi acirrado com a entrada em cena dos pangermanistas e, mais tarde, dos nazistas. Estes últimos influenciaram parte da imprensa e das instituições teuto-brasileiras, inclusive a escola alemã.

A atuação da Liga Pangermânica (Alldeutsche Verband), denunciada tanto por parlamentares e jornais brasileiros como pela França, Inglaterra e Estados Unidos, aumentou a especulação em torno de uma possível intervenção da Alemanha no sul do Brasil no início do século. O caráter étnico da organização comunitária teuto-brasileira levou muitos brasileiros a imaginar a possibilidade de uma secessão no sul, patrocinada pelo imperialismo alemão. O “perigo alemão”, portanto, consistia na ameaça de criação de um estado independente englobando o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ou na transformação das regiões de colonização alemã em colônias da Alemanha. Além disso, temia-se que o pluralismo proposto pelos teuto-brasileiros fosse também reivindicado pelas demais etnias imigradas. Diversos incidentes, explorados na imprensa nacional e internacional, pareciam dar razão aos que denunciavam o perigo secessionista. Qualquer conhecedor da realidade histórica da colonização apontaria, então, para o evidente exagero dessas especulações, como fez Bayma (1919), mas a presença pangermanista reforçava esses temores, até por ter introduzido no contexto teuto- brasileiro a categoria Auslanddeutsche — isto é, todos os descendentes de alemães foram considerados alemães de fato, mesmo residindo no estrangeiro.

As relações interétnicas foram, assim, marcadas pelo conflito entre duas concepções diferentes de nacionalismo. Ocorreram várias crises, como a que envolveu marinheiros de um navio de guerra alemão em visita ao porto de Itajaí (SC), em 1905, e ficou conhecida como o “caso Panther”. A deserção de um marinheiro e sua busca, em terra, pelos próprios companheiros, sem permissão das autoridades brasileiras, teve repercussão nacional e internacional. Como incidente diplomático, teve solução através das chancelarias brasileira e alemã, mas o fato foi amplamente explorado como ato imperialista e exemplo do “perigo” representado pela concentração de teuto-brasileiros no sul. Os conflitos iriam repetir-se durante a primeira guerra mundial, sobretudo após o posicionamento formal do Brasil em favor dos aliados em 1917. Por outro lado, desde o século XIX, houve empenho de algumas lideranças teuto-brasileiras — como Karl von Koseritz — em criar condições de aumento do fluxo imigratório alemão para o Brasil. O posicionamento dos jornais teuto-brasileiros em favor da Alemanha até 1916 também repercutiu mal no resto do país. A imprensa foi então censurada, os jornais saíram de circulação entre 1917 e 1919, e todas as manifestações de natureza étnica foram proibidas. No entanto, apesar da intensidade da propaganda pangermanista até 1914 e dos conflitos mencionados, a identidade de Auslanddeutsch foi recusada, preservando-se uma concepção teuto-brasileira de grupo étnico.

Na década de 30, o partido nazista procedeu da mesma forma que a Liga Pangermânica, com ênfase ainda maior na velha retórica da superioridade racial dos alemães. Introduziu, também, nova categoria de identificação — Volksgenosse (compatriota) — numa clara vinculação entre a origem alemã e o pertencimento ao partido nacional-socialista, mas embora usassem elementos da ideologia étnica e nacional, radicalizando os pressupostos do Deutschtum, para eles Volksgenosse era muito mais uma categoria de identificação política. No entanto, como os limites deste trabalho não comportam uma análise sobre o nazismo no Brasil e sobre a reação do governo brasileiro à presença ostensiva de diretórios do partido nazista no sul e em São Paulo, resta dizer que, mais uma vez, prevaleceria no âmbito das “colônias alemãs” o dualismo implícito na categoria teuto-brasileira — uma conciliação entre a origem alemã e a cidadania brasileira que nem pangermanistas, nem nazistas, conseguiram anular. Afinal, quando os nazistas iniciaram sua propaganda, o processo de aculturação já era irreversível (Willems 1946); e antes da nacionalização do ensino, em 1937, as escolas alemãs já haviam introduzido a língua portuguesa nos seus currículos.

A crise maior nas relações com os brasileiros se iniciou em 1939, a partir da campanha de nacionalização forçada, imposta pelo Estado Novo, com participação militar. O projeto de assimilação visava todos os imigrantes e descendentes estabelecidos no país, mas foi particularmente duro com alemães e japoneses. Durante toda a campanha repressiva das manifestações étnicas, os descendentes de imigrantes, brasileiros de fato, foram classificados como alienígenas, estrangeiros que deviam ser “abrasileirados”, diluídos na sociedade nacional.

A organização comunitária teuto-brasileira, a força da imprensa e das publicações em língua alemã, a existência de uma literatura produzida por teuto-brasileiros, enfim, a própria perplexidade dos nacionalizadores diante de uma sociedade diferente e incompreensível, fez com que a campanha se tornasse radical para esse segmento de alienígenas, para utilizar o termo então adotado por militares e políticos. Estranhamento bem exemplificado encontra-se no livro de Rui Alencar Nogueira (1947), tenente do exército, cearense, que participou da campanha em Blumenau: tudo ali foi por ele considerado antibrasileiro, desde a língua falada em público, passando pela arquitetura das casas e prédios públicos, cemitérios, mulheres bebendo cerveja nos clubes, até as bicicletas nas ruas. Perdia-se, conforme seus termos, a sensação de Brasil. A perplexidade de Nogueira diante da cidade “esquisita”, símbolo da germanidade, só não foi maior que a perplexidade dos descendentes de alemães diante da repressão, uma vez que se consideravam legítimos cidadãos brasileiros (Seyferth 1982). Perplexidade à parte, podemos dizer que, se a assimilação era bem visível, segundo as interpretações de Willems (1940, 1946), Martins (1989) Diegues Jr. (1964), entre outros, também eram bem visíveis as diferenças culturais e sociais — acentuadas pelo uso cotidiano do idioma alemão — que impunham limites étnicos. A campanha foi vivida como a crise maior de uma história de confrontos com essa outra sociedade — a brasileira. A tentativa de assimilação forçada, compulsória provocou, pelo menos no momento histórico de sua imposição, uma volta ao isolamento étnico. Escolas e instituições étnicas em geral foram fechadas, o uso da língua proibido, num contexto em que categorias pejorativas passaram a fazer parte do universo de identidades atribuídas pelos outros (os brasileiros) — passando todos à condição de alemães adjetivados, inclusive como nazistas.12

A longo prazo, porém, foram eliminados alguns dos canais formais de atualização étnica: várias sociedades e a imprensa em língua alemã se extinguiram, e as associações esportivas, como as sociedades de tiro, por exemplo, eliminaram da sua programação as atividades culturais de natureza étnica. No entanto, muitas das atividades correntes em associações como as Gesangvereine (Sociedades de Canto), por exemplo, são hoje retomadas com o emblema do folclore e, através da dança, do canto, do teatro, etc., expressam uma condição étnica.

Os critérios de pertencimento étnico, com sua natureza simbólica, são reflexos de uma cultura, de uma tradição específica, com elementos distintivos próprios derivados de uma situação histórica — a colonização alemã. A etnicidade teuto-brasileira se atualizou, mantendo alguns identificadores culturais objetivos, outros de natureza estritamente ideológica e transformando outros. A língua alemã, para dar um exemplo significativo, teve ensino formalizado para grande parte da população teuto-brasileira até 1937; depois disso, face à proibição do seu uso durante a campanha de nacionalização, seu aprendizado passou a fazer parte da tradição oral — a transmissão de geração a geração. Isso não a transformou em mera curiosidade: a deturpação por palavras e expressões derivadas do português ou a incorreção gramatical, não anularam seu sentido étnico, e seu uso ainda é comum no meio rural e em alguns segmentos urbanos. Com certeza não é um linguajar “folclórico”, no sentido dado popularmente a este termo.13 É parte de uma cultura teuto-brasileira e para aqueles que a utilizam no dia a dia, sobretudo no plano das relações familiares e de amizade, não é identificadora de uma condição étnica. Atualmente, ocorre um processo de revalorização da língua alemã: indivíduos cujos pais não falam a “língua dos antepassados” procuram o aprendizado formal em cursos. A língua é visualizada por eles de duas maneiras: como característica étnica, ou seja, como marca de uma identidade específica que valoriza a origem; ou, como instrumentalidade, pois cria tanto a possibilidade de obter trabalho ou mesmo de emigrar para a Alemanha (fazendo um “caminho de volta”) — o que reflete, em grande parte, a crise econômica brasileira — quanto a possibilidade de utilizá-la no plano das relações econômicas que vinculam muitas empresas do sul do Brasil à Alemanha.

A “origem”, por sua vez, com grande carga de significados simbólicos, passou a ser a qualidade étnica por excelência, associada a um ethos do trabalho constantemente acionado por referência ao passado pioneiro.

Os elementos que entram nessa categorização étnica (ainda hoje) — origem presuntiva, língua materna, ethos do trabalho e passado pioneiro — são comumente acionados por outros descendentes de imigrantes (italianos e poloneses) que também participaram do processo de colonização do sul do Brasil. Os três grupos continuam reivindicando, cada um à sua maneira, uma religiosidade e uma sociabilidade específicas.14 Há um outro ponto em comum: as três identidades étnicas são construídas por oposição aos brasileiros (termo que, nesse contexto, assume conteúdo étnico, e nada tem a ver com a cidadania). Nos três casos, os brasileiros são etnocentricamente classificados como inferiores, através de critérios que vão de uma pressuposta incapacidade para o trabalho — desqualificados como preguiçosos, atrasados, descuidados — à falta de fervor religioso. A desqualificação dos brasileiros se faz a partir da “origem” — o passado europeu, sem mistura de raças — que, se não tem uma referência explícita e traços fenotípicos, implica na consideração de diferenças biológicas hierarquizadas. No contexto das relações interétnicas, que opõem aos brasileiros indivíduos que se auto-identificam como alemães, italianos e poloneses, a palavra “origem” aparece como sinônimo de raça. Mas, se por um lado, essas identidades foram elaboradas a partir da oposição mais ampla aos brasileiros, por outro lado, elas também existem opostas entre si — e, nesse caso, algumas diferenças culturais e, sobretudo, um discurso étnico dominado pela subjetividade servem como limites. A língua e a origem são os critérios de classificação mais óbvios, mas não faltam referências a hábitos alimentares, tipos de moradia e ocupação do espaço, além de muitas observações acerca do caráter e do comportamento, além da diligência produtiva — cada grupo reivindicando para si a posição no topo da hierarquia étnica.

A identidade étnica teuto-brasileira, em resumo, está quase sempre associada à idéia de ascendência comum (a “origem alemã”). Na prática, isso implica na aceitação de um modo de vida e de um comportamento social ancorados numa presumida tradição alemã passada de geração a geração desde os colonizadores pioneiros. Essa cultura comum, na verdade, é produzida no âmbito da colonização, e a própria identidade étnica tem como corolário a existência de um modo de vida específico que está acima das clivagens de classe, religiosas ou regionais. Houve um processo cultural de constante reelaboração de limites, dentro dos quais todos estão localizados através do passado histórico comum que simboliza a unidade étnica. Tais limites não são unívocos; são manipuláveis, variam conforme a situação. Assim, se um operário teuto-brasileiro, sob certas circunstâncias ditadas por sua posição de classe, pode alinhar-se com seus companheiros de trabalho “brasileiros” — numa greve, por exemplo — noutras circunstâncias, no mesmo âmbito do trabalho, pode colocar-se em oposição a eles — como, por exemplo, para acionar a “origem” e a capacidade étnica de trabalho presumida para os alemães, a fim de obter um emprego ou uma promoção. Por outro lado, as identidades de classe que, em muitos planos de vida social, separam os diferentes segmentos da população teuto-brasileira, não anulam o postulado mais amplo da etnicidade, permanentemente atualizada, que tem no passado pioneiro — e, por extensão, no ethos do trabalho — o símbolo maior da unidade étnica.

A forma de atualização mais recente da etnicidade teuto-brasileira remete às manifestações classificadas como “folclóricas” e aos “eventos típicos”, que surgiram em meados da década de 80, principalmente em Santa Catarina, no rastro da popularidade nacional, alcançada pela Oktoberfest de Blumenau. Nos dois casos, temos formas de manifestação das diferenças étnicas, mas elas não são percebidas da mesma maneira: a tradição cultural alemã estaria sendo perpetuada através da atividade dos diferentes grupos folclóricos que surgiram em várias cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas não nas festas típicas da “cultura do chope”, como a Oktoberfest e congêneres. Assim, os teuto-brasileiros têm duas versões para explicar o surgimento da primeira Oktoberfest (que usa o mesmo nome de evento similar realizado em Munique, Alemanha). Na primeira delas, que faz parte da versão oficial, a festa aparece como símbolo da luta contra as cheias do rio Itajaí-açu, que periodicamente arrasam Blumenau. A primeira Oktoberfest teria sido organizada para “levantar o moral da população” após uma das maiores enchentes do Vale do Itajaí, ocorrida em 1983; uma “festa alemã” para, indiretamente, festejar o “trabalho alemão” que desde de 1850, data da fundação da colônia, tem dominado a natureza. Na segunda versão, externalizando a opinião daqueles que se preocupam com a “autenticidade alemã” da manisfestação festiva, argumenta-se que, apesar do caráter mais ou menos local da primeira Oktoberfest, ela é uma invenção de empresários e da Prefeitura para atrair turistas na baixa estação.15 No entanto, muitos dos que se auto-definem como “grupos folclóricos” alemães de dança, canto, música, etc. — e compartilham desta segunda versão, participam da festa fazendo exibições destinadas ao consumo turístico. Uma outra crítica, parte da população local que condena, principalmente, o aumento do fluxo turístico e suas conseqüências: excesso de gente, pouco espaço para a população local participar dos eventos, a “bagunça brasileira” perturbando o ambiente, preços altos, que deixam o principal símbolo alemão da festa, o chope, distante do poder aquisitivo da população de renda mais baixa (colonos e operários). Nisso, entram em concordância com os segmentos mais intelectualizados ou preocupados com a questão da autenticidade das “manifestações folclóricas”, que classificam a festa pejorativamente, como mais uma manifestação da “cultura do chope” e que, por isso mesmo, não representa a verdadeira “cultura alemã”, preservada pelos teuto-brasileiros. É importante observar que críticas semelhantes são feitas a outras festas do mesmo gênero realizadas em diferentes cidades de Santa Catarina, situadas em regiões de colonização européia.16

O elemento crucial dessas críticas, contudo, é um só: as festas deixam de ser “nossas” para ser “deles” (os brasileiros/ turistas), o que remete ao ponto sempre destacado nos estudos das relações interétnicas — os sistemas de oposições que confrontam identidades em contraste.

Nenhum desses eventos foi organizado espontaneamente pela população e, certamente, a maioria deles tem como finalidade atrair potenciais consumidores para a produção industrial e artesanal. São, portanto, do interesse do poder local e dos empresários em geral, mas não podem, simplesmente, ser considerados como uma invenção de prefeitos e industriais. A Oktoberfest só tem vocação turística numa cidade identificada como “alemã” — no caso, Blumenau, que expressa o caráter paradigmático da colonização alemã no Brasil. Ela atrai os outros por ter assumido um caráter étnico, que a própria população local, malgrado às críticas, lhe atribui. Por isso mesmo, os componentes dos grupos folclóricos, que se intitulam “autênticos” podem criticar (até pejorativamente) o caráter turístico dos eventos e, ao mesmo tempo, participar deles com objetivo de mostrar aos brasileiros uma cultura étnica.

O folclore aparece nos discursos locais como representativo da tradição cultural mais popular. Nesse sentido, as manifestações folclóricas servem para marcar uma identidade específica teuto-brasileira, ainda que a categoria alemão esteja mais presente na auto-identificação étnica. O termo único de identificação remete àquilo que tem de diferente em relação aos brasileiros, valorizando a “origem” através da cultura popular. Das danças tradicionais, com dançarinos usando roupas tradicionais de várias regiões da Alemanha, à culinária, o folclore exibe para os estranhos as diferenças de natureza étnica, reafirmando uma identidade própria. As manifestações folclóricas, porém, não existem em função dos eventos turísticos. sua popularidade atual, a busca pela autenticidade17 e a constante renovação dos grupos, inclusive com o propósito de incentivar a utilização da língua alemã, remetem à valorização ou idealização do passado “na colônia”, quando elementos tradicionais da cultura alemã faziam parte da vida cotidiana, inclusive de forma institucionalizada.

Os eventos mencionados, portanto, tem um artificialismo apenas aparente, porque neles, de alguma forma, é celebrada a colonização alemã. As explicações contraditórias que cercam a invenção da primeira Oktoberfest pouco importam nesse contexto. As festas, os grupos folclóricos e outras formas de expressão das distinções culturais — como a culinária e a arquitetura — têm caráter de símbolos étnicos, marcam diferenças em relação aos demais brasileiros, reafirmam o que julgam ser uma tradição cultural trazida da Alemanha pelos antepassados colonos. Servem como sinais diacríticos que marcam a identidade étnica, traduzida pelas categorias alemão e teuto-brasileiro (Deutsch e Deutschbrasilianer) — a primeira delas mais comumente utilizada no contraste com outras identidades do mesmo tipo. Assim, a categoria de auto-identificação, que legitima o pertencimento étnico a um grupo que reúne, simbolicamente, os descendentes dos imigrantes alemães, é definida por referência a vários outros, e por diversos graus de distintividade. Esses outros são, em primeiro lugar, os brasileiros, numa qualificação genérica que remete àqueles que têm descendência lusitana; mas, de acordo com as circunstâncias, essa categoria pode ser substituída por caboclos, sempre que critérios raciais pressupondo inferioridade genética são acionados. Como categoria de contraste, o termo brasileiros (no plural) engloba também negros, bugres (índios), mulatos, pelos-duros, etc., numa classificação pautada pela crença na superioridade de trabalho dos alemães. Na definição dos brasileiros, portanto, predomina a subjetividade do preconceito racial, onde a origem alemã tem lugar de destaque, mas não é a única fonte de distinção étnica. A língua alemã, o estilo de vida — que pode incluir desde simples referências à decoração da casa até costumes relacionados a dote e herança, ou à intensidade da fé. As manifestações que, de alguma forma, remetem a uma idealização genérica da cultura alemã, como pretendem os grupos folclóricos, são também acionadas para distinguir os alemães dos brasileiros nessa classificação categórica, mas servem, principalmente, para estabelecer limites em relação aos outros que compartilharam da mesma trajetória da colonização — italianos e poloneses — às vezes classificados, respectivamente, pelos termos pejorativos de polenteiro e polaco.

A breve análise aqui realizada não aborda todos os aspectos da etnicidade teuto-brasileira. Os símbolos que servem como limites inclusivos remetem explicitamente a uma cultura comum vinculada à origem nacional e ao passado pioneiro das “colônias alemãs”. Os limites exclusivos, por sua vez, são melhor percebidos no sistema classificatório que opõe os alemães aos brasileiros —privilegiando o ideário da superioridade racial germânica — e, com menos intensidade, na oposição aos italianos e poloneses.

Os símbolos étnicos, neste caso, são representativos de uma especificidade cultural e definem a condição de membro de um grupo étnico. A etnicidade continua a ser um fator significante para grande parte da população teuto-brasileira.



NOTAS

1. Apesar da existência de algumas colônias etnicamente homogêneas estabelecidas antes da intensificação do fluxo imigratório, os teuto-brasileiros, após 1875, passaram a conviver com outros imigrantes europeus, partilhando uma experiência histórica comum, guardadas as especificidades culturais de cada grupo.

2. A assimilação dos alemães à sociedade brasileira é analisada, entre outros, por Willems [Assimilação e populações marginais no Brasil (São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1940)], [Aculturação dos alemães no Brasil (São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1946)], Albersheim [Uma comunidade teuto-brasileira (Jarim, Rio de Janeiro: CBPE/INEP, 1962)] e Martins [Um Brasil diferente, 2a ed. (São Paulo: T. A. Queiroz, Ed., 1989)]. Para uma referência mais ampla sobre a bibliografia teuto-brasileira ver G. Seyferth, “Imigração e colonização alemã no Brasil: Uma revisão da bibliografia”, Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais (BIB) 25 (1988): 3-55.

3. Mesmo assinalando a natureza ubíqua do fenômeno étnico que os antropólogos não devem ignorar, Cohen define grupo étnico como “uma coletividade de pessoas (a) que participa de alguns padrões de comportamento normativo e (b) que forma parte de uma população maior, interagindo com pessoas de outras coletividades no interior de um sistema social;” etnicidade é o “grau de conformidade dos membros da coletividade a estas normas de participação no curso da interação social”. Assinala o caráter amplo de tal definição, dizendo que ela pode incluir coletividades que não são usualmente descritas como étnicas. No entanto, ancorado no conceito antropológico de cultura, remete às formações simbólicas que tornam as categorias étnicas conceitos objetivamente identificáveis, e a etnicidade aparece como “forma de interação entre grupos culturais operando em contextos sociais comuns” (Cohen 1974, IX-X).

4. A primeira colônia alemã no Espírito Santo foi fundada em 1847 (Santa Izabel) e a segunda em 1859 (Santa Leopoldina), com grupos muito pequenos de imigrantes da Prússia e da Renânia. Os pomerânios chegaram entre 1870 e 1879 — e até hoje mantêm sua identidade regional, inclusive o dialeto — encerrando o fluxo de alemães para aquele estado. Segundo Wagemann [A colonização alemã no Espírito Santo (Rio de Janeiro: IBGE, 1949)], no ano de 1915 existiam no Espírito Santo cerca de 16.000 indivíduos de ascendência germânica.

5. Os projetos de colonização nos estados do sul, durante o século XIX, foram efetivados quase que exclusivamente com famílias de imigrantes europeus. Apesar da retórica assimilacionalista da elite republicana, esta situação não durou muito após 1889. O problema dos trabalhadores nacionais foi amplamente discutido e constituiu-se uma preocupação real dessa elite avessa a qualquer reforma agrária; mas, por outro lado, a população rural brasileira era considerada atrasada, inferior porque mestiça e incapaz de produzir livremente numa economia capitalista. Assim, os colonos brasileiros sempre foram numericamente inexpressivos, mesmo nos projetos particulares que, a partir da década de 1920, deslocaram para o oeste catarinense [Renk, A luta da erva: Um ofício étnico da ‘nação brasileira’ no oeste Catarinense, Dissertação de Mestrado (Rio de Janeiro: PPGAS/Museu Nacional, 1990)] e para o Paraná os filhos e netos dos alemães e italianos que participaram da colonização do Rio Grande do Sul.

6. No conjunto dos imigrantes identificados nas colônias (e não nas estatísticas brasileiras) como alemães, estavam incluídos tanto os que vieram, de fato, de algum Estado alemão ou, após 1871, da Alemanha, assim como aqueles que, no leste europeu, faziam parte das minorias teutas (sobretudo na Rússia, região do Danúbio e Polônia). As diferenças dialetais podem ser uma forma de identificação, mas não ocorreram diferenciações de natureza étnica, nem utilização de categorias regionais (a não ser o caso dos pomerânios do Espírito Santo) que tivessem alguma representatividade.

7. A categoria colono, no sul do Brasil, tem sido usada pelos descendentes de imigrantes europeus como indicadora de uma qualidade específica do camponês pequeno proprietário “de origem”. A expressão “de origem” quase sempre permite articular à categoria colono um qualificador étnico — italiano, alemão, polaco ou polonês, etc. A história da colonização, enquanto experiência compartilhada, serve como parâmetro mais geral que reúne todos sob a mesma identidade de colono, em oposição aos brasileiros, desqualificados como caboclos (e, nesse plano de oposição, transforma-se numa categoria de natureza étnica). Seyferth [“As contradições da liberdade: Análise de representações sobre a identidade camponesa”, Revista Brasileira de Ciências Sociais 18 (1992): 78-95].

8. A imigração européia foi considerada por boa parte da elite imperial e republicana como instrumento de civilização e essencial ao projeto de consolidação de uma nação ocidental e branca. A única dúvida estava relacionada à concepção do imigrante ideal. No Império, os alemães foram assim classificados, ressaltando-se suas qualidades como camponeses diligentes e produtivos. Na República, Silvio Romeno, entre muitos outros, assinalava os portugueses, espanhóis e italianos como imigrantes ideais para o país chegar a seu modelo ideal de nação civilizada, branca, latina e católica, no contexto de uma retórica assimilacionista.

9. O elogio da germanidade foi tema dos mais comuns nos editoriais dos jornais teuto-brasileiros — com ênfase particular na preservação do idioma. Os Kalender (almanaques), periódicos anuais, e outras publicações semelhantes serviam de veículo a uma literatura (poesia e prosa) que ressaltava a identidade teuto-brasileira e pretendia retratar o cotidiano da colonização. Sobre este assunto, ver os trabalhos de Gehse [Die deutsche Presse in Brasilien von 1852 bis zur Gegenwart (Münster, Aschendorf: Deutschtum und Ausland Studien, 1931)] e Kuder [“Die Deutschbrasilianische Literatur und das Bodenstãndigkeitsgefühl der Deutschen Volksgruppe in Brasilien”, Ibero Amerikanisches Archiv, X, 1936/37)].

10. A luta pela participação política plena mobilizou bastante algumas lideranças teuto-brasileiras que reivindicavam para os descendentes dos imigrantes tanto o direito de voto quanto um espaço para representantes dessa população nas Assembléias Legislativas provinciais e federal. Ao final do Império, o número de teuto-brasileiros em cargos públicos (eletivos ou não) era irrisório. Roche [A colonização alemã e o Rio Grande do Sul (Porto Alegre: Editora Globo, 1969)]. Até a década de 30, as elites brasileiras relutaram em considerar eleitores indivíduos alfabetizados que não se expressavam em português. O uso cotidiano da língua alemã foi, assim, um entrave à participação política.

11. A maior parte dos argumentos preconceituosos utilizados para defender a especificidade étnica estava relacionada à miscigenação (os brasileiros, vistos a partir do caboclo, classificados como mestiços, inferiores e com baixa capacidade de trabalho) e às concepções acerca da superioridade racial dos alemães. Apesar do discurso racista — também presente na imprensa teuto-brasileira — características fenotípicas raramente serviram de base à distinção étnica.

12. As categorias étnicas de auto-atribuição — alemão e teuto-brasileiro — não mudaram desde o século XIX e formalizam, ainda hoje, limites grupais. No contexto da campanha de nacionalização, porém, diversas categorias pejorativas foram acionadas para desqualificar a população de origem alemã, atingindo, principalmente, aqueles que não sabiam se expressar em português ou o faziam incorretamente. As duas categorias usadas com maior freqüência — “alemão-batata” e “alemão de merda” — passavam a idéia de cidadão de segunda classe. Outros termos, embora atribuídos indiscriminadamente, estavam associados ao nazismo e pressupunham traição à pátria, como broche e quinta-coluna.

13. Vários autores apontaram para as modificações introduzidas na língua alemã falada pelos teuto-brasileiros. Willems (1946), entre outros, faz listagens de termos modificados onde há uma grande quantidade de palavras compostas, em português e alemão. Trata-se de uma linguagem própria, bem distinta do Hochdeutsch (alto alemão) e mesmo do Plattdeutsch (o alemão popular): as diferentes pronúncias dialetais que prevaleceram nas colônias e as modificações decorrentes do aprendizado oral levaram à formação de uma linguagem teuto-brasileira. Aqueles que a utilizam, contudo, afirmam estar falando o alemão popular.

14. A semelhança desses discursos étnicos pode ser avaliada na bibliografia: a “italianitá” ou “italianidade” foi analisada por Azevedo [Italianos e gaúchos. Os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul, 2a ed. (Rio de Janeiro/Brasília: Ed. Cátedra/Pró Memória, 1982)]; Wachowicz [O camponês polonês no Brasil (Curitiba: Fundação Cultural “Casa Romário Martins”, 1981)]; e Vianna [Etnia e território: Os poloneses de Carlos Gomes e a luta contra as barragens (Rio de Janeiro: CEDI, 1992)] fazem referência à “polanidade;” e em Seyferth [“Imigração, colonização e identidade étnica. (Notas sobre a emergência da etnicidade em grupos de origem européia no sul do Brasil)”. Revista de Antropologia XXIX (1986): 57-71; Imigração e cultura no Brasil, (Brasília: Editora da UnB, 1990)], onde são comparados os três casos.

15. A temporada turística em Santa Catarina ocorre no verão, especialmente nos meses de janeiro e fevereiro, nas áreas litorâneas. Os turistas são potenciais consumidores de mercadorias produzidas nas indústrias das regiões próximas aos balneários — inclusive o Vale do Itajaí. A Oktoberfest e outras festas “típicas” são, de fato, polos de atração de um fluxo turístico próprio, dando respaldo a esta segunda versão.

16. Os exemplos são muitos e a identidade de quase todas remete a algum hábito alimentar considerado germânico ou próprio da colonização — Festa do Marreco (Brusque), da Colônia (Guabiruba), do Chope (Joinville), etc. — apresentando uma estrutura semelhante à da Oktoberfest, com exibição de bandas, grupos folclóricos, entre outras manifestações. Em cidades associadas à colonização italiana, o fenômeno se repete, tendo a polenta como base de identificação: afinal, uma das categorias étnicas atribuídas aos “italianos” é a de “polenteiro”.

17. A preocupação com a autenticidade é quase uma obsessão para os participantes de grupos folclóricos. Fazem pesquisas bibliográficas que recuam ao século XVIII, em busca de detalhes mínimos de um traje, da execução de uma dança ou de uma música. Participam das manifestações que classificam como “cultura do chope”, mas afirmam que seu propósito é recuperar o prestígio da cultura alemã mais tradicional para a comunidade. A exibição para os outros, segundo eles, permite mostrar a especificidade desse folclore dentro do Brasil.

 

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